O Problema do Abuso

 

O abuso sexual infantil é um dos grandes flagelos para a condição das famílias contemporâneas. E, como mostrarei brevemente a seguir, é um dos grandes problemas que reside dentro ou próximo ao lar. Se há um problema relevante hoje é a “doença autoimune” da nossa sociedade, que nasce dentro do próprio seio familiar disfuncional.

Gostaria de dedicar este espaço para pintar um cenário geral sobre este tema que, infelizmente, é pouco esclarecido e bastante negligenciado.

 

O que é o abuso? Antes de tudo, é importante clarificar o assunto que iremos tratar neste livro. A Fundação Abrinq o conceitua assim: “O abuso sexual pode se manifestar dentro ou fora da família e acontece pela utilização do corpo de uma criança ou adolescente para a satisfação sexual de um adulto, com ou sem o uso da violência física. Desnudar, tocar, acariciar as partes íntimas, levar a criança a assistir ou participar de práticas sexuais de qualquer natureza também constituem características desse tipo de crime.”

 

Onde reside e qual a dimensão do problema? Segundo o relatório da UNICEF sobre violência contra a criança – publicado em 2006, um estudo realizado em 21 países –, a ocorrência da violência sexual chega a afligir 36% das mulheres e até 29% dos homens vitimizados durante a infância, sendo a taxa de agressão até três vezes maior em meninas. A maior parte dos abusos ocorreu dentro do círculo familiar. Quanto à idade mais crítica, o relatório indica que até 21% das mulheres sofrem o abuso antes dos 15 anos, em grande parte por familiares do sexo masculino.

Os registros de atendimentos no SOS Criança da ABRAPIA – Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência – (hoje extinta) relataram, entre 1998 e 1999, a seguinte realidade brasileira: 49% das vítimas tinham de 2 a 5 anos, 33% de 6 a 10 anos; 80% eram do sexo feminino; e 90% dos agressores eram do sexo masculino.

 

Qual é o perfil do agressor? Em geral, como visto acima, os agressores são homens heterossexuais ligados ao convívio da vítima. De acordo com estudos conduzidos pelo Laboratório de Estudos da Criança da USP, “de 85% a 90% dos agressores são conhecidos da criança: familiares ou pessoas muito próximas que se utilizam da relação afetiva para o ato libidinoso ou sexual”, conforme boletim da REBEDIA – Rede Brasileira de Informação e Documentação sobre Infância e Adolescência. Dados publicados pela PsiqueWeb indicam que, nos casos intrafamiliares, os agressores mais frequentes são: pais (52%), padrastos (32%) e tios (8%).

O pediatra Lauro Monteiro, editor do Observatório da Infância e fundador da extinta ABRAPIA, comenta: “O abuso ocorre, com frequência, dentro ou perto da casa da criança ou do abusador. As vítimas e os abusadores são, muitas vezes, do mesmo grupo étnico e nível socioeconômico.” Ao contrário dos mitos populares, os abusadores são em geral pessoas aparentemente normais e próximas das crianças e dos adolescentes vitimados.

 

Por que o abuso não é discutido ou denunciado? Frequentemente, o adulto que comete violência sexual obriga a criança ou o adolescente a guardar segredo sobre o que ocorreu. Para isso, usa de formas diversas de pressão, como a ameaça física ou psicológica, e até a conquista do afeto da criança (não se esqueça de que o abuso ocorre, em geral, entre familiares ou amigos).

“Quando há envolvimento de familiares, existem poucas probabilidades de que a vítima faça a denúncia, seja por motivos afetivos ou por medo do abusador; medo de perder os pais; de ser expulso(a); de que outros membros da família não acreditem em sua história; ou de ser o(a) causador(a) da discórdia familiar”, afirma Dr. Lauro.

 

Quais os efeitos do abuso? A Dra. Maria Cecília de Souza Minayo, uma das maiores especialistas em violência contra a criança, afirma: “Estudos têm mostrado que, frequentemente, crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual costumam sofrer também outros tipos de violência, como a física e a psicológica; tendem a sentir muita culpa e a ter baixa autoestima; podem apresentar problemas de crescimento e de desenvolvimento físico e emocional; e tendem a ser mais vulneráveis a ideias e tentativas de suicídio. Muitas saem de casa quando os abusadores são os pais ou padrastos, passando a viver nas ruas, expostas a agressões e à cultura da delinquência. Grande parte delas costuma sofrer de enfermidades psicossomáticas e sexualmente transmissíveis.”

Há, na literatura médica, evidências de que os efeitos do abuso vão além da infância. Na vida adulta, sem tratamento adequado, resultam em dificuldade de desenvolver relacionamentos sociais, alcançar objetivos profissionais, impotência sexual e frigidez, depressão e suicídios – relata Dr. Lauro.

 

O que fazer? Ao final deste livro, apresentaremos formas de auxiliar a vítima e sua família após o diagnóstico, ou simplesmente, mais informações para quem deseje apoiar este nobre trabalho, seja em campanhas, no ambiente de trabalho, na sua igreja ou escola.

Porém, um dos maiores problemas em casos de abuso sexual é o silêncio. Em geral, as crianças abusadas não avisam que foram violentadas, pois são convencidas ou forçadas a não falar sobre o assunto. Em decorrência disso, poucos casos são denunciados e a impunidade impera sobre a sociedade civil e moral.

É realmente difícil tomar consciência e encontrar soluções para este tipo de crime, pois em apenas 30% dos casos de abuso infantil há evidências físicas. Em casos consumados, no entanto, pode-se vigiar a vítima durante o período de “muro de silêncio”. Nessas circunstâncias em que carrega o segredo, ela demonstrará sinais de afastamento e mudança de humor. Pais e responsáveis devem estar muito atentos às mudanças de conduta e ao humor de seus filhos.

Este livro em si é uma ferramenta de ajuda que oferecemos para facilitar aproximação de vitimados, e lançar a oportunidade de discutir o assunto com franqueza e delicadeza, diagnosticando casos de abuso de forma não invasiva. Esperamos que, por meio deste recurso simples e acessível, muitas crianças e adolescentes possam ter a oportunidade de receber ajuda adequada e esperança para continuar a vida.

Se você não possui uma vítima em seus relacionamentos próximos, meu desafio é que apoie o trabalho de prevenção neste tema, que é o mais eficaz mecanismo de proteção a qualquer criança! Encorajo-o a ser parte deste movimento a serviço da nova geração de famílias brasileiras.

Stefan Dyo Nishimura, editor

 

 

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